Nova semente de soja transgênica ocupará 10% da área plantada na próxima safra

MG MOREIRA
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Com o aval da China, compradora de quase 70% da soja brasileira, os produtores do país deverão cultivar 10% da área da próxima safra com a segunda geração da semente transgênica da Monsanto. Será um teste efetivo para a Intacta RR2, que pretende revolucionar as lavouras do Brasil com aumento de produtividade e imunidade às principais lagartas – uma das maiores inimigas da cultura. O resultado será derradeiro para justificar, ou não, o investimento dos agricultores na nova tecnologia.

A estimativa do percentual a ser semeado no ciclo 2013/2014, em torno de 2,5 milhões de hectares, é calculada a partir da quantidade de sementes RR2 que a empresa e seus parceiros já produziram – cerca de 3 milhões de sacas. Aprovada por 40 países, a tecnologia já estava pronta para ser lançada comercialmente em 2012. Porém, a aprovação da China não veio a tempo do cultivo. Responsável por compras de US$ 11,8 bilhões da soja em grão em 2012, o país asiático era fundamental para dar sinal verde à novidade.

Com a aprovação chinesa em mãos desde o início da semana, a Monsanto começa a distribuir a semente ao mercado. Vencida a barreira diplomática, a tecnologia terá de transpor mais dois obstáculos: preço e comprovação de rentabilidade.

– É uma nova geração biotecnológica, a primeira soja com inseticida natural. Mas o espaço que terá nas lavouras será definido pelos resultados práticos – diz Glauber Silveira, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja).

Embora a Monsanto ainda não tenha definido o valor a ser cobrado pela RR2, o preço inicial estimado em R$ 115 por hectare – quase seis vezes superior ao dos royalties da semente atual (R$ 22 por hectare) – deixa produtores receosos. A empresa justifica o valor a partir de três vantagens: aumento de produtividade, tolerância ao herbicida glifosato e controle das principais lagartas que atacam a cultura.

– Se o aumento do custo for menor do que o ganho de resultados, o produtor irá aderir. Se tiver eficiência, terá mercado – aponta Jorge Rodrigues, coordenador da comissão de grãos da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul).

A aprovação da China veio em momento oportuno. Com plantio previsto para outubro, os gaúchos normalmente começam a planejar as estratégias da próxima safra em junho.

– A partir deste mês, o agricultor começa a escolher e encomendar a semente que irá plantar. A aprovação da China dá tranquilidade ao produtor– enfatiza Rodrigues.

Procurada, a Monsanto se pronunciou por nota, afirmando que os detalhes da cobrança de royalties serão definidos nas próximas semanas.

No Noroeste, produtor irá usar duas novas cultivares

Com 300 hectares destinados ao cultivo de soja em Santo Ângelo, no noroeste do Estado, o produtor Laurindo Roberto Nikititz, 50 anos, irá plantar 15% da próxima lavoura com as sementes Intacta RR2 Pro, produzida pela Monsanto, e Liberty Link, desenvolvida pela Bayer – ambas aprovadas pelo governo da China neste ano.

– Toda nova tecnologia requer cautela de nossa parte. Antes de mergulhar de cabeça, temos de verificar se a teoria se concretiza na prática, com os resultados esperados – disse Nikititz.

Na última safra, o produtor colheu, em média, 45 sacas por hectare. Nas áreas a serem semeadas com a nova tecnologia, o agricultor espera chegar a, no mínimo, 50 sacas por hectare, além de economizar com inseticidas para combate de lagartas.

— Para ser realmente vantajosa, levando em conta os custos maiores, a semente tem de alcançar rendimento no mínimo 10% maior – complementa Nikititz.

A expectativa dos sojicultores gaúchos é de que a cobrança seja apenas sobre a semente e não sobre a produção – evitando contestações jurídicas, a exemplo do que ocorreu com a RR1, primeira geração transgênica da Monsanto.

– Queremos pagar pelo invento, não pelo resultado. Cobrar sobre a produção, na moega, significa que o produtor que investe mais e alcança melhor rendimento terá de pagar mais, e isso não é justo – aponta Ireneu Orth, presidente Aprosoja no Estado.

Estado abrigou área de plantio piloto

Antes de chegar ao mercado, a Intacta RR2 Pro foi testada em mil lavouras experimentais de soja no país, incluindo o Rio Grande do Sul – terceiro maior produtor nacional do grão. Conforme a Monsanto, os resultados foram de uma produtividade média de seis sacas extras por hectare, na comparação com as variedades de sementes mais plantadas nas diversas regiões do país. Quando se detalham experiências individuais, no entanto, os desempenhos são variados – até mesmo inferiores.

Um dos escolhidos para testar a tecnologia, Sandro Cardinal, de Santiago, 44 anos, se decepcionou com a produtividade. Nos 80 hectares plantados com a RR2, colheu 43 sacas por hectare. Nas áreas cultivadas com sementes tradicionais o resultado médio foi de 47 sacas por hectare – com algumas variedades chegando a 60 sacas.

– Alguns fatores influenciaram, como a quantidade muito grande de sementes indicada para a área da RR2 pela cooperativa. Como a planta cresceu demais, se perderam bastante grãos na colheita – avalia Cardinal.

Quanto ao combate a lagartas, a RR2 foi eficiente, avalia o produtor que pretende não investir na nova cultivar na próxima safra:

– Não usamos inseticida e a planta não sofreu ataques. Mas, se fosse apenas pela economia de defensivos, não investiria na semente.

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