Goiania-Será o fim da Feira da Marreta?

MG MOREIRA
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Tradicional feira livre de Goiânia, a Feira da Marreta corre risco de não existir mais. Prefeitura municipal exige cadastro


ANTES
Os feirantes da tradicional Feira da Marreta ou Feirão Múltiplo, realizada todo domingo, no Setor Nova Vila, das 4h às 14h, ao lado do Parque de Exposição Agropecuária de Goiânia, reclamam que, desde o dia 10 de maio, são proibidos de exercerem suas atividades no local. O motivo seria a exigência do recadastramento dos trabalhadores junto à Secretaria Municipal de Indústria e Comércio (Semic). O último cadastro foi feito há 11 anos. A Marreta está entre as 24 feiras especiais com funcionamento autorizado pela Semic. Segundo José Geraldo Fagundes, secretário do órgão, os trabalhadores devem voltar ao exercício, assim que os dados dos comerciantes forem atualizados.
DEPOIS
Neste contexto, a reportagem do Diário da Manhã foi atrás dos feirantes da Feira da Marreta para conversar com os trabalhadores sobre as atividades desenvolvidas por eles e saber dos prejuízos desde a proibição do comércio pelo órgão da prefeitura.
Segundo o feirante Wilmar Gomes, 52, que também vende artigos de antiguidades, os trabalhadores da Feira da Marreta já tinham sidos cadastrados, em 2002, quando ela saiu da Praça Boaventura e se instalou ao lado da Pecuária de Goiânia. “Tem trabalhadores que só têm essa renda da feira. Existem muitos feirantes, assim como eu, que estão com todos os documentos regulares exigidos pela Semic. Há quase três domingos não podemos trabalhar por causa de algo que já foi feito. A prefeitura está nos prejudicando somente com intuito de arrecadar mais impostos”, indigna Gomes que há 30 anos trabalha no local.
O secretário da Semic disse à reportagem do DM, que o intuito do órgão não é acabar com a Feira da Marreta, embora exista clamor da sociedade que pede o fim dela. “O objetivo da Semic é organiza a feira, pois entendemos que naquele lugar muitas pessoas precisam da feira para se sustentar. A área ocupada atualmente pelos feirantes é da SGPA, e temos recebido das comunidades em geral o desejo pelo fim das atividades no local”, afirma.
Ainda de acordo com o secretário, até a Câmara Municipal de Goiânia, se manifestou contrária à permanência da feira próximo à instituição. Isso quando os feirantes exerceram no passado suas atividades na Avenida Leste Oeste, que fica ao lado da Câmara. “Nós entendemos que as pessoas queriam que a feira acabasse, mas lá tem muita gente boa que precisa trabalhar. Até me propus alocá-los em outra feira, caso quisessem, mas eles disseram que possuem ponto fixo, as pessoas já os conhecem naquele local”, sensibiliza.  
Conforme Wilmar Gomes, os feirantes que tentaram montar suas barracas há duas semanas para trabalhar, tiveram suas mercadorias apreendidas pela Secretaria de Fiscalização da prefeitura. “São pessoas que precisam, alguns são catadores de papéis que estavam vendendo coisas velhas e usadas. Foram três caminhões da prefeitura que recolheram os objetos dos trabalhadores, além de viaturas da Guarda Municipal e Polícia Militar para ajudar”, afirma.
De acordo com Fagundes, as mercadorias apreendidas foram dos feirantes ilegais, que não estavam cadastrados anteriormente e tentaram montar suas mercadorias em locais não autorizados. “A intenção não é impede-lós de trabalharem, mas que exerçam suas atividades em lugares permitidos pela prefeitura. A Praça Boaventura onde eles tiveram as mercadorias apreendidas não é mais local para esta feira”, diz.   
O que procura?
Na Feira da Marreta tem, lá é possível encontrar diversos produtos novos, usados e uma variedade de objetos de antiguidades, desde peças de vestuários a LPs. Os feirantes oferecem aos clientes antes de comprar a vantagem de pegar a mercadoria, checar as condições e ainda testá-la no local.
Outro feirante, o sergipano Paulo Chagas, que fabrica e vende colheres de pau, conta que encontrou na feira uma oportunidade de trabalho e lamenta ter se ausentado do local. “O Nordeste é muito castigado pela seca, não tem como viver lá. Vim para Goiânia com intuito de trabalhar. Na feira vendo minhas gurias (colheres) e retiro parte do meu sustento, e agora espero poder voltar a trabalhar”, diz.          
O secretário ressalta que o recadastramento dos feirantes é apenas uma atualização cadastral de dados, pois a medida foi realizada há 11 anos, quando a feira se instalou onde ela se encontra atualmente. O procedimento da Semic visa regularizar as atividades exercidas pelos trabalhadores da Feira da Marreta e afastar as pessoas que tentarem comercializar mercadorias ilícitas.
O vendedor Geraldo da Silva, conhecido como o homem da cobra, há 30 anos trabalha na Feira da Marreta. Na banca dele é possível encontrar diversas ervas que promete curar muitas doenças. Ele diz que retira do local o sustento da família e que já viu muita coisa acontecer por ali. “O nosso sustento sai é daqui e precisamos voltar logo a trabalhar. Nessa feira vendemos para todos os tipos de pessoas, inclusive médicos e gente da alta sociedade”, conta.
A aposentada e feirante Elisa Ferreira, que vende roupas usadas em bom estado, ela diz que já ganha pouco com a aposentadoria, mas que a feira complementa a renda. “Agora sem trabalhar por tempo indeterminado vai ficar difícil para mim”, lamenta.
Origem
A Feira da Marreta surgiu através de costumes do povo nordestino que povoaram há muito tempo, a região leste da capital goiana. Vindos para trabalhar na construção de Goiânia, eles se reuniam na Praça Boaventura para o que chamavam de troca-troca. Dessa forma, as pessoas trocavam objetos usados entre si, e não havia circulação de dinheiro no local. No entanto, na década de 70, com o crescimento urbano, a inocente troca de produtos foi dando lugar às atividades ilícitas por pessoas mal-intencionadas que vendiam objetos roubados. Assim, nasceu o nome pejorativo, marreta, palavra com vários significados, mas neste caso, designa roubar, tomar do alheio.      
Atualmente a Feira da Marreta é um lugar onde se vende de tudo, sejam produtos novos ou usados, relíquias e antiguidades não mais vistas no mercado comercial. No local também se encontra mercadorias com preços baixos que levantam suspeitas, mas feirantes que trabalham há anos na feira garantem que os objetos tem procedência. Eles afirmam que grande parte da comercialização é de fabricação própria e artesanal. No entanto, os trabalhadores apontam que na feira há pessoas de má índole, que se infiltram para tirar proveito e vender objetos escusos, o que não é a realidade da maioria.
O secretário Fagundes entende que na feira existem muitas pessoas que trabalham honestamente e o exercício de atividades ilícitas no local, não é uma realidade da maioria. De acordo com a Semic, a Feira da Marreta tem espaço para abrigar 300 feirantes, e que foi feito um acordo com os trabalhadores para voltar o funcionamento do local.
“Eu sou favorável à permanecia da feira desde que esteja tudo organizado. Assim, o acordo com os feirantes é de que eles consigam juntar 100 permissionários que já estejam cadastrados, que mostrem os comprovantes das taxas de documentos em dia e aqueles que já tiverem efetuado o pagamento não vão pagar mais nada”, afirma. O secretário disse ainda se os feirantes cumprirem o acordo feito entre ambas às partes de regularizar no mínimo 100 trabalhadores, a Feira da Marreta poderá voltar no final dessa semana.
Os feirantes que nunca foram legalizados para trabalhar na feira também terão a oportunidade de ter um ponto comercial no local. Para isso, ele deve procurar a Semic, abrir processo de requerimento no órgão. Entretanto, diferente das demais feiras da capital, a Feira da Marreta com quase 50 anos, é um local que pode ser visto também como um ponto turístico da região dada à sua tradição. 

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