A crise do PMDB do Tocantins chegou ao nível máximo. Extrapo-lou os limites do Estado, ganhou o Congresso Nacional, ocupa espaço na agenda política da presidente Dilma Rousseff e virou um grande problema para a cúpula nacional do partido. Ou a direção intervém e acaba com a crise ou a crise acaba com o partido.
Não é segredo para ninguém dizer que no Tocantins o PMDB vem sendo disputado quase à tapa por governistas e oposicionistas. De um lado estão os “autênticos” liderados pelo ex-governador Marcelo Miranda, que mantém boa cotação nas pesquisas de intenção de voto para o governo do Estado e que defende que o partido deve ter candidato próprio. Do outro, o deputado federal e atual presidente da legenda, Júnior Coimbra, que quer o partido na base do governo Siqueira Campos (dizem peemedebistas que o presidente teria negociado candidatura a vice na chapa do tucano Eduardo Siqueira Campos). Embora ele negue publicamente, na prática sua atuação no comando da legenda demonstra a aproximação ao governo. Foi o que ficou evidente durante a votação das contas dos ex-governadores Marcelo Miranda e Carlos Henrique Gaguim. As contas foram rejeitadas com votos a favor dos deputados peemedebistas Vilmar do Detran e Iderval Silva, aliados de Coimbra. A reprovação das contas que teoricamente deixa os dois peemedebistas fora da disputa de 2014, fez acender o pavio de pólvora na crise do partido. No meio de toda essa crise surge uma novidade que pode salvar o partido ou apressar o racha definitivo: o anúncio da filiação da senadora Kátia Abreu (PSD), que foi recebido com entusiasmo pelos autênticos e com total desprezo pelos moderados que comandam o partido. A senadora se filiaria com a pretensão declarada de ser candidata ao governo ou a reeleição para o Senado. Prefeitos, vereadores e líderes ruralistas que acompanham a senadora engrossariam as fileiras do PMDB, bem como os seus filhos, deputado federal Irajá Abreu e o vereador de Palmas Iratã Abreu. Um grande negócio para um partido em crise. O prefeito de Paraíso do Tocantins, Moisés Avelino, revela que a negociação para “trazer Kátia Abreu para o PMDB vem de longe”. Ele conta que já foi sondado duas vezes e sempre concordou. Avelino diz que a senadora tem seus defeitos, mas também qualidades. Para o prefeito a filiação da líder ruralista soma em nível nacional e pode ser uma solução para a crise de liderança que vive o partido. O prefeito recomenda apenas que a senadora chegue sem patente, como soldado, no nível de todos os militantes. O discurso violento do deputado Júnior Coimbra contra a senadora Kátia Abreu na tribuna da Câmara Federal mostra como anda o clima no partido e o que parecia ser a solução da crise azedou de vez a possibilidade de entendimento entre os dois grupos divergentes. “O PMDB do Tocantins é um partido forte e não vai ceder espaço a esse tipo de politicalha para beneficiar essa senhora oportunista, desqualificada e que usa de qualquer expediente para chegar ao poder. No Tocantins todos sabem a história da senadora Kátia Abreu. Suas manobras para chegar ao Sindicato Rural de Gurupi e à Federação Tocantinense de Agricultura. Sua falta de respeito às pessoas e aos seus liderados, seu estilo grosseiro e sua maldade”, declarou o deputado em discurso duro que chama atenção pela agressividade. “Todos conhecem como ela se tornou uma das maiores proprietárias de terras no Brasil, como afirmou recentemente a revista britânica ‘NewsWeek’. Como ela aproveitou-se de um programa do governo do Estado para incentivo à agricultura na região de Campos Lindos e abocanhou a preços irrisórios uma quantidade imensa de terras, nunca plantou nada, como determinara a concessão e, anos mais tarde, vendeu a preços fabulosos. Para se ter uma ideia, somente um dos lotes adquiridos pela senadora Kátia Abreu, na época, de 1.265 hectares foi comprado por apenas R$ 25.650,00. Ou seja, o hectare saiu pelo preço irrisório de 20 reais. Hoje apenas um hectare pagaria toda a fazenda. Cambalacho puro”, completou o deputado que nega manter negociação com o PSDB, partido em que poderia se filiar em caso de perder o comando do PMDB. Depois do pronunciamento agressivo do deputado a cúpula do partido convocou os dois grupos para tentar uma saída honrosa. Mais uma vez a frustração foi o resultado. O grupo dos autênticos ameaça deixar o partido se não houver solução. A verdade é que a disputa pelo comando do partido enfraqueceu suas principais lideranças e corre sério risco de inviabilizá-lo para 2014. O PMDB no Tocantins é o único partido que está presente, de forma organizada nos 139 municípios do Estado. Tem penetração nos rincões mais distantes, tradição e identidade com a cultura regional. Possui o maior número de prefeitos, vereadores e deputados e a maior estrutura partidária. Mas é um partido dividido, com comando complicado e sem um projeto consistente de poder. No momento vive o drama da indecisão. Pode encabeçar a chapa de oposição com chances reais de eleger o próximo governador ou assumir papel de coadjuvante, compondo a chapa governista na condição de vice. A decisão passa por Brasília. Os últimos acontecimentos da política do Tocantins colocaram o PMDB no centro do furacão. O partido é disputado por governistas e oposicionistas. E este dado basta para ressaltar a crise de identidade que a legenda vive. Um partido que perdeu as últimas eleições para o governo do Estado por uma diferença ínfima de 7.156 votos não poderia ter perdido a noção do seu papel de oposição. Dois anos depois das eleições o a sigla já estava sob o controle do governo, numa aliança inexplicável com os adversários tradicionais. Conformado com a vice Na eleição de Palmas a direção do PMDB decidiu, em vez de lançar candidato próprio, indicar a vice do candidato palaciano Marcelo Lelis. A decisão não foi retirada em decisão democrática do partido, mas por meio de decisão unilateral do presidente, que decretou a coligação com o governo. A aliança com o siqueirismo que foi denunciada pelos “autênticos” como um golpe revelou ter sido um grande equívoco. Além do desgaste decretou a derrota do candidato do governo e fez surgir um fenômeno eleitoral, o empresário Carlos Amastha, que venceu as eleições explorando a contradição histórica da aliança entre PMDB e PSDB. O ex-governador Marcelo Miranda acusa a direção do partido de fazer uma aliança prejudicial ao PMDB para fugir à pressão do Palácio Araguaia, que ameaça cassar o mandato de deputados da sigla por irregularidades na prestação de contas das eleições. O presidente continua dizendo que foi uma eleição pontual e que não tem nenhuma vinculação com 2014. Mas na prática não é isso que se vê. Depois das eleições de 2012 o PMDB passou a cortejar o Palácio Araguaia. O que explica o ataque da mulher do presidente ao ex-governador Marcelo Miranda, como ocorreu recentemente? Como explica a derrota dos ex-governadores na votação de suas contas depois de dois anos fazendo pressão para que a matéria fosse à votação? Afinal os dois deputados mencionados que dizem defender a candidatura do ex-governador Marcelo Miranda não sabiam que a rejeição de suas contas os deixariam inelegíveis? Pois é. Não é estranho também que no momento que muitos partidos fazem campanha para colher novas filiações a direção do PMDB do Tocantins se recuse a receber a filiação da senadora Kátia Abreu e seu grupo de apoio? Só no Tocantins acontecem essas coisas absurdas, difíceis de explicar. Não é à-toa que o maior partido do Estado em vez de ampliar as condições para voltar ao poder está jogando a toalha, envolto em brigas paroquiais absolutamente inexplicáveis.
Fonte: Ruy Bucar/Jornal Opção Foto: Reprodução

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