TOCANTINS. O que muda na disputa de 2014?

MG MOREIRA
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Novos partidos, novos pré-candidatos e quase a mesma configuração de antes. Ainda é difícil saber quem ganhou e quem perdeu neste primeiro round da disputa pelo Palácio Araguaia marcado por intenso troca-troca de partido, o que não significa necessariamente mudança

A pergunta está na ordem do dia. O que muda na disputa de 2014 depois de 4 de outubro, último prazo para filiação partidária para quem deseja ser candidato, em que se verificou uma verdadeira reviravolta protagonizada pelos partidos à cata de novas líderes para enfrentar as eleições? A resposta é parcial, imprecisa, de certa forma subjetiva. O processo ainda está em curso e não é possível examinar até que ponto as trocas de siglas podem resultar em alguma mudança no processo eleitoral de 2014.

O novo cenário aponta para o aparecimento de novos partidos, anúncio de novos pré-candidatos, rompimentos e adesões que sacudiram o cenário político regional, mas podem resultar em nenhuma mudança. Convém analisar este processo com a desconfiança necessária a uma análise política.

Nem sempre mudança de partido significa de fato mudança política, programática ou de filosofia. Às vezes se muda pela necessidade de impedir mudanças. Como bem observou o escritor italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa, no romance “O leopardo”, que diz que em política é preciso que tudo mude para que tudo continue como está.

Tomando o volume das trocas diríamos que mudou muito, mas avaliando o impacto político das novas filiações, diríamos que nada mudou. A rigor, a configuração da disputa continua a mesma. Siqueira X Miranda com a possibilidade acentuada de surgimento da terceira via, que tem o prefeito de Palmas, Carlos Amastha, como principal referência.
Agora se verifica um número maior de candidaturas alternativas gravitando em torno desta órbita. São dissidências destas duas forças em busca de caminho próprio

Na base do governo o secretário de Relações Institucionais, Eduardo Siqueira Campos, se mantém como nome preferencial. Em segundo lugar vem o senador Vicentinho Alves, que comanda o recém-criado partido Solidariedade (SDD), que já nasceu grande no Tocantins. Pela oposição o ex-governador Marcelo Miranda, que permanece no PMDB, é o principal nome; em seguida como plano B vem a ex-primeira-dama Dulce Miranda, cujo nome pode ser defendido pelas bases caso o marido seja impedido de ser candidato.

Pela terceira via os empresários Nicolau Esteves, do PT, e Roberto Pires, do PP, são os nomes mais prováveis. Os ex-prefeitos de Porto Nacional Paulo Mourão e de Palmas Raul Filho disputam a vaga de candidato ao Senado. O prefeito Carlos Amastha garante que a aliança que dá sustentação ao seu governo terá entendimento com o grupo do senador João Ribeiro ainda no primeiro turno. Se isso acontecer, qualquer candidato do grupo terá condições de concorrer com chances reais de ir ao segundo turno.

Os empresários e suplentes de senador Ataídes de Oliveira com seu novo Pros, e Marco Antonio Costa com PSL revitalizado, e ainda o deputado Marcelo Lelis com o PV independente, são três novidades deste novo cenário. Os três descolaram da base do governo para tentar vida própria.

Se vão obter sucesso, se vão compor com outras forças políticas ou se vão voltar à velha União do Tocantins é difícil dizer. Todos buscam uma brecha para se lançar como alternativa que supere a tradicional polarização entre Siqueira e Miranda. Mas não será surpresa nenhuma se decidirem compor com esses grupos ainda no primeiro turno. O processo está aberto e tudo pode acontecer.

O que se pode perceber é que este será um dos pleitos mais disputados de toda a história do Tocantins. Haverá segundo turno seguramente. Siqueira não faz um bom governo, mas não vai querer entregar o comando do Estado que tanto lutou para reconquistar assim de graça. A previsão é de que o pleito de 2014 tenha pelo menos cinco ou seis candidatos com três concorrendo em pé de igualdade. O governo tem vaga garantida no segundo turno, resta saber quem será o segundo, se o PMDB ou a terceira via.

Sobre o balanço da troca de partidos, o fato mais importante neste período não foi mudança de sigla, ainda que isso seja o pano de fundo. O mais importante foi o rompimento da senadora Kátia Abreu (PSD) com o governo Siqueira Campos, que se consolidou. Este sim é um fato político que tem relevância, que tem poder de alterar a ordem das coisas. A senadora pode até ser uma aliada que alguns têm resistência, mas é uma adversária que ninguém gostaria de ter.

O desentendimento da líder ruralista com o vice-governador João Oliveira, que resolveu permanecer no governo, comprova que o rompimento é definitivo e terá repercussão no processo eleitoral. Kátia, que indicou Oliveira para compor a chapa majoritária, exigiu lealdade. Oliveira preferiu ser leal ao governador e deixou a senadora irritadíssima.

Indignada com o aliado, Kátia revelou que o vice propôs a ela montar uma farsa: permanecer leal ao governo até abril, quando poderia assumir o comando do Palácio Araguaia, e então voltaria a apoiá-la. Coube ao vice-governador reclamar que diante da sua decisão de ficar com o governo a senadora teria declarado que iria destruí-lo. O certo é que a briga entre os dois não tem vencedor, só vencidos.

E o governo ganha muito com este desgaste. No caso do vice, precisa dele subserviente. No caso da senadora, precisa dela desgastada.

A líder ruralista tem muita culpa nesta história toda. Kátia Abreu inicialmente anunciou filiação ao PMDB com o plano de disputar o governo do Estado ou a reeleição. A estratégia que levaria a presidente da Con­federação Nacional da Agricul­tura e Pecuária (CNA) a liderar a oposição não deu certo como ela imaginava, e nem poderia. A senadora fez exigências “incabíveis” como assumir o comando da legenda e assustou os peemedebistas em crise pela ameaça de siqueirização do partido.

Em consequência do diálogo com o PMDB, o governo que trabalha para cooptar o partido do ex-governador Marcelo Miranda, não ouviu a senadora sobre sua estratégia de ir para um partido de oposição e decidiu partir para a retaliação. Exonerou o filho da senadora, o deputado Irajá Abreu, da Secretaria de Desenvolvimento Rural e Regularização Fundiária, o que a deixou profundamente magoada.

A atitude do governo mostra que o rompimento da senadora representa enorme prejuízo. A retaliação foi o que restou ao governo diante do que considerou traição. É preciso lembrar que a senadora teve peso decisivo na eleição do governador Siqueira Campos.

A senadora saiu com cara de derrotada deste episódio, mas pode representar uma grande ameaça ao candidato governista. Kátia é vingativa tão quanto o próprio Siqueira. Siqueira sabe muito bem disso. Se tiver oportunidade de reatar relações com a senadora vai fazer porque sabe que sem a líder ruralista só tem a perder.

O governo perdeu também, ao que parece, a parceria histórica com o senador João Ribeiro (PR). Um parlamentar atuante e próximo da presidente Dilma. O senador articula uma frente de partidos para disputar o governo. Pelo nível de entendimento com a oposição Ribeiro não tem mais diálogo com o siqueirismo.

Outra baixa importante na base do governo é o deputado Marcelo Lelis (PV), que finalmente se deu conta que o siqueirismo era um fardo muito pesado para carregar, sem necessidade. Lelis ainda conseguiu se juntar a outro dissidente de peso, o deputado Freire Júnior, que se filiou ao PV e mantém discurso de oposição afiado.

É impossível relatar aqui todas as trocas de partidos e novas filiações. Talvez seja mais fácil falar de movimento. Neste sentido se pode concluir que houve uma perda significativa de líderes do governo com deslocamento para oposição. Só para relembrar, senador João Ribeiro, deputada Luana Ribeiro, senadora Kátia Abreu, os suplentes de senador Marco Antonio Costa e Ataídes de Oliveira, e os deputados Freire Júnior e Marcelo Lelis, dentre outros.

Pode-se observar também movimento inverso de líderes da oposição aderindo ao governo, a maior parte do PMDB, como é o caso do deputado Iderval Silva, do suplente de deputado Ricardo Ayres, outros do PR, como o deputado Stalin Bucar, e até do PT como a deputada Solange Duailibe, dentre outros.

No caso dos municípios a correlação de forças é favorável ao governo. A maioria dos prefeitos é governista, independentemente do partido a que esteja filiado.

No balanço geral da pré-temporada o governo perdeu dois senadores e dois deputados estaduais e ganhou três deputados estaduais. Pelos números a oposição parece que saiu fortalecida. Não saiu. A oposição está dividida em oposições. O governo é um só e está unido. Faz-se necessário lembrar que a máquina administrativa no Tocantins tem peso determinante. E o siqueirismo sabe usá-la como ninguém.

Eduardo Siqueira Campos sai deste movimento com o seu nome consolidado na base do governo. Mas o sucesso eleitoral não depende apenas de articulações, cooptações e entendimentos políticos, no seu caso depende quase que exclusivamente do resultado do governo. E resultado ainda é um produto escasso nesta gestão.

Mas o governo ainda não acabou. Os resultados precisam aparecer logo antes que acabe a paciência do eleitor. É preciso ressaltar que as oposições não têm sabido aproveitar as fraquezas do governo. Não tem explorado suas contradições e contribui para a acomodação política que favorece os governistas.

A guerra ainda nem começou e já é possível identificar as vítimas do jogo pesado das eleições, alguns poucos vitoriosos e a maioria absolutamente perdida que se imagina que ainda vai levar algum tempo para se encontrar no front da disputa e escolher de que lado pretende ficar. É espera para ver o que vai dar. Como dizia o filho do Gongomé (Salomão Wenceslau), pois é, é isso.
Fonte: Ruy Bucar Foto: Agência Senado, Edilson Pelikano e Ascom

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