Nem só de Ossos Precisam os Cães

MG MOREIRA
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Fátima Guedes*

É da natureza canina a atração por ossos. Quem convive com a espécie sabe do valor de um osso dentre seus desejos. Assinale-se ainda que a particularidade ultrapassa fatores como raça, pedigree e, mesmo, classe social. Sobre a última categoria, comprovadamente, nem os bichos escapam à estratificação produzida pela sociedade classista dominante: há cachorros ricos, pobres e miseráveis.
Sobre o objeto dos desejos caninos tal atração exclui qualquer crivo avaliativo ou teste de qualidade. Osso é sempre um osso. E ainda, por mais que lhes sejam amigos, poucos saem ilesos quando se atrevem tirar-lhes o estimulante. No entanto, vivenciei uma exceção que compartilho com afins.
Dada minha afinidade com caninos decidi adotar uma fêmea Rottweiler (no popular Rotivale), 09 meses. De personalidade altiva, elegante e determinada assemelha-se às guerreiras matriarcas que vêm para liderar e mostrar quem comanda o terreiro. Passara pelas mãos de duas famílias sem que interagisse conforme o esperado. Está há dois meses em nossa casa e se depender de meu acolhimento e cuidados, será comigo até a eternidade. Lua é seu nome. Independentemente da fase, certamente, iluminará nossas vidas e deixará pegadas de amor, parceria e lealdade.
Além das qualidades observadas em nossa Estrela, comprovamos também uma elevada inteligência: estrategicamente elabora seus mecanismos de conquista. Talvez a “arte da guerra” numa versão caninoéticasuntzuana. Para legitimar seu espaço entre Baby, Filó e Zumbi - células de nosso universo familiar - reveste-se de prudência e finge submissão. Assim, diante das regras impostas por aquele coletivo é comum encontrá-la em atitudes de respeito e reverência aos que chegaram primeiro. Enfim, acredita na lei do pertencimento e opta pela política da convivência canino-fraternal, fazendo-se da família que, apesar das diferenças caninológicas, é aceita e amada, principalmente, pelo Guerreiro Zumbi.
Entre mim e Lua há uma interlocução de profundo respeito: de meu lado, apresento-lhe os códigos de fêmea humana com identidade biológica e afetiva similares a todas as fêmeas, assim como regras de boa convivência entre diversidades bioculturais; de seu lado, dialogo com seu perfil sensível, dominante e ao mesmo tempo zeloso, respeitando-lhe limites e tolerâncias. E, assim, a cada dia, ganho seu respeito, lealdade, plena confiança e amor.
A prova do que afirmo veio quando, num canto discreto do pátio, concentradíssima, deliciava-se com um desgastado osso encontrado casualmente em suas pesquisas de quintal. Na outra extremidade do pátio, em posição de alerta e paquera, Zumbi lambia os beiços esperando um descuido ou distração da Companheira. (Impressionante como os animais se respeitam no trato dos direitos individuais e coletivos).
Discretamente, aproximei-me da porta que separa o pátio do quintal... E carinhosamente...
- Minha Lua!... Que garota mais bonita!...
Voltou-se docemente, largou o osso, veio ao meu encontro cobrindo-me de lambidas carinhosas... O osso???... Já era!!!... Zumbi sumira com ele quintal a fora. Desarmada e tranquila abanava o rabo seguindo os movimentos do companheiro, talvez dizendo, “seu tolo, escolhi a melhor parte”. Abracei-a delicadamente em reconhecimento àquele gesto...
Foram vários os aprendizados, dentre eles: entre um osso qualquer (ilusão de saciedade) Lua preferiu ao afeto – tesouro que só outro canino com semelhantes qualidades pode roubar; também confirmava a sincera reciprocidade e ao mesmo tempo o quanto represento em sua vida...
Por fim, a presente experiência encontra pleno acolhimento na Senciência Animal: “Todos os animais, independentemente da espécie, (inclusive os humanos), têm a capacidade de sentir dor e de vivenciar sentimentos e emoções”.


Fátima Guedes
Jornal Plantão Popular
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